"Eu não sei ser sensual
Não esbanjo formas e tinos
Não olho e saio
Não fico e saio
Eu não sei ser mulher
Nas trapaças que essa palavra representa
Eu sei ser comum
Comum como as noites de segunda-feira
Como sol do domingo
Como a lua dos acampamentos
O vinho do frio
O banho do verão
Assim, simples.
Eu só aconteço e cuido.
Dou esmolas
Converso com as senhoras
Brinco com as crianças
E amo.
Ouço músicas e emociono
Vejo filmes e choro
Dou risadas com meus amigos
Observo-me no espelho
E tenho medo quando a janela balança forte
Só sou como tenho que ser.
Não converso muito com ele
A voz vai embora na hora
Não escondo o que sinto
Minha face também é simples.
E, é assim.
Eu tremo
Eu gemo
Eu travo
Eu não quero ser mulher pra ter homem
Eu quero tomar café
Eu quero tomar vinho
Eu quero decotes sem jogos
Pinto a cara, mas não me escondo, realço o natural.
Eu escrevo
Eu leio
Eu relato
Eu não sei ser sensual
Na atração e no desejo que essa palavra representa
Sou primitiva como mãos
Eu beijo o sabor
Eu olho almas
Eu sinto o corpo
E conto pro universo a serenidade do meu sexo."
(Cecília Borges)
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