09 setembro, 2008

A difícil arte de ser mulher e não querer ser mãe

Dias atrás passei pelo clínico geral para pedir os exames anuais de praxe: colesterol, diabete, anemia, etc e tal. Quando ele começou a fazer as perguntas rotineiras já me preparei:
- Idade?
- 34.
- Casada?
- Sim.
- Tenho filhos?
- Não.
Ele olha novamente a idade.
- Então tá hora de ter né?
- Eu não quero ter filhos doutor...
- Por quê? (indignadíssimo)
- Porque eu não tenho vontade de tê-los.
- Você tem mais irmãos?
- Sim, tenho três.
- Vocês dão uma assistência ao seus pais?
- Damos.
- Então quem vai cuidar de você quando você estiver velha?
Nessa hora eu sempro respiro fundo, dou uma risadinha antes de responder, tentando ao máximo ser educada:
- Eu não posso colocar um filho no mundo só para ele cuidar de mim quando eu estiver velha doutor. Tenho que ter um filho por vontade de ter, e eu não tenho.
Ele não gostou da minha resposta, foi evidente. Ainda resmungou algumas coisas que eu não consegui entender e levantou para medir minha pressão.
Depois me entregou a guia para fazer os exames e disse:
- Pronto, tá aqui. Quando ficarem prontos você retorna.
- Tá bom, obrigada doutor.
- E se você mudar de idéia sobre o filho ainda dá tempo viu?
Dou outra risadinha: Boa tarde, doutor.
Seeeempre é assim. Quando falo que não quero ter filhos sou sabatinada por uma série de perguntas: por quê? como assim? uma mulher só se realiza quando ela tem um filho! você não quer ter agora mas depois você vai ter é isso?
Às vezes até minto, falo que quero, mas agora se falo isso vêm outras perguntas: mas quando você vai engravidar? não pode demorar mais não viu? por que você não ter só um né? tem que ter no mínimo dois. E por aí vai.
Por que será que é tão difícil as pessoas entenderem isso? Esses dias vi uma reportagem no Fantástico falando do assunto, foi uma alívio saber que, apesar de não estar nem perto de fazer parte da maioria, pelo o menos não estou só nessa história. Outras mulheres (e homens) também declararam a não vontade de procriar e também são criticados por isso.
Pois bem, hoje lá vou para uma consulta com o ginecologista novo. Novo prá mim, pois com a mudança de convênio tive que mudar vários médicos também.
No caminho já ia pensando no famoso diálogo, tudo de novo...O médico era um japonês, uns 50 anos, a princípio simpático.
- Idade? blá, blá, blá
- Tem filhos?
- Não.
- Tem algum caso de câncer de mama na família?
(eu espantadíssima: como assim o senhor não vai me perguntar quando vou tê-los? e depois por quê não quero ter? pensei lógico não falei)
E ele continuou calmamente o questionário "devido" da consulta.
Na hora do exame ele perguntou:- E filhos? Você não quer não?(tava demorando, pensei)
- Não doutor, eu não tenho vontade de ter não. Sei que é estranho, todo mundo me questiona sobre isso mas eu não quero.
- Ah é? As pessoas te questionam é? perguntou rindo.
- Nossa e como! Já ouvi tanta coisa! A última foi do clínico geral que passei nesses dias...( e contei a história).
Ele respondeu:
- Bom primeiro que não é da conta dele se você quer ter ou não filhos, e isso quem tem que decidir é você não ele. Sabe o que você faz? Vai guardando um dinheirinho e quando você ficar velhinha você vai para um desses Spa bem chique e eles tomam conta de você.
Dei risada aliviadíssima! Nossa, quanta diferença! Educação e bom senso é tudo!
Lembro que saí da consulta com o clínico indignada, pensando: será que toda mulher que vem aqui ele fala que ela tem que ter um filho, que não importa se ela tem vontade, se tem condições (principalmente)moral e financeira prá isso? Se ela tem um casamento estável? Se há maturidade no casal para educar uma criança? Se ela está preparada para passar os próximos 15, 20 anos educando e se dedicando para essa pessoa? Juro que eu acho que não.
O fato é que ela nasceu mulher e mulher e tem que parir, é isso.
Vejo mães quase loucas por não saberem lidarem com seus filhos, crianças fazendo o querem e tratando os outros como querem por que as mães dizem: aí, ele é assim, tem uma personalidade tão forte...
Isso sim é triste e deprimente.
Por outro lado também têm muitas crianças solitárias em casa precisando da atenção do pai e da mãe mas esses estão só o pó, largados no sofá por que trabalharam o dia inteiro e agora querem um pouco de paz para assistir o Jornal Nacional. Mas não se preocupa, em dezembro tem o décimo terceiro e a gente vai comprar um vídeo game novo prá você para compensar a nossa ausência tá?
Isso sim me revolta. Realmente eu não tenho certeza se eu teria as condicões necessárias (em todos os sentidos) para colocar um filho no mundo, e é nisso que eu penso.
Eu posso sim, me sentir uma mulher completa sem parir, mas realmente não sei se somente o fato de ter um filho já me tornará automaticamente capacitada para ser MÃE.

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